domingo, 4 de setembro de 2011

Olhos de ressaca.

Entre a música alta e ao redor dos estranhos que chamávamos de amigos, você estava sentando abaixo de mim, e por mais que eu tentasse, não conseguia ouvir as palavras que saiam do seus lábios. Estava abafado. Você naquele smoking que não estava nem um pouco ajustado as suas proporções, e eu sofria no espartilho do vestido que me prendia o ar.
A pergunta que não soube responder, me fez sentir o toque da suas mãos sobre o tecido grosso que estrangulava meu corpo, você me puxou pra perto do seu rosto e levemente pronunciou as letras como já mais havia notado. A música parecia ter sofrido algum tipo de alteração nas mãos daquele que a regulava, estava baixa. Ninguém mais parecia se importar com nada, contudo ainda percebia seus corpos contorcendo com a sonoridade fraquíssima. E sem tempo para me esquivar, lá estavam eles, escuros e pequenos como sempre, fundos, que me tragavam para dentro de algo que me colocava medo, me tragavam com tanta força que força não bastava. Estávamos sem palavras.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Creme ou chocolate.

Se morássemos juntos, escolheríamos aquele apartamento de apenas um quarto em algum bairro afastado do centro de Roma. Você me cederia a cama contra a minha vontade, e acabaria no sofá.
Se morássemos juntos, eu te acordaria só com o cheiro forte do café pela manhã, você me olharia com um enorme sorriso no rosto e eu estaria apenas de camiseta e calcinha rindo da sua samba canção do Super-Homem. Você teria de sair para comprar as tintas para nossa mini casa, e como em filmes americanos acabamos as paredes ao som dos Beatles nem um pouco limpos.
Se morássemos juntos, teríamos a maior coleção de filmes de terror que o mundo poderia crer, assistiríamos todos sentados na sua cama- ou melhor- no seu sofá, e ao apagar das luzes, eu iria pro meu quarto e dormiríamos.
Se morássemos juntos, eu acordaria no meio daquele quente domingo do alto verão italiano e me acomodaria entre seus braços.
-Pesadelo?- você diria, e fecharia meus olhos sem eu precisar assentir. Dormiríamos no seu sofá apertado.
Se morássemos juntos, teríamos de adiantar o despertador dez minutos antes do ideal, que tipo de estagiários seriamos chegando atrasados?
Se morássemos juntos, teria de ser aquele restinho de comida que você preparou ao longo da noite no restaurante e mesmo estando ótima eu ainda lhe diria que estava horrível.
Se morássemos juntos, ficaríamos horas jogando poker no meio da sala com aquela garrafa de vodka ao nosso lado que trouxemos para casa quando viajamos para Finlândia. Lembraríamos de quando ainda eramos adolescentes aqui no Brasil e falávamos de morar na Itália, somente nós dois, num apartamento pequenininho em algum bairro afastado do centro de Roma. Apoiados um no outro olharíamos pela janela o céu estrelado, e bem mais ao fundo, as luzes fortes que a cidade concentrava nos lugares turísticos. Eu olharia para seu rosto meio quadrado e ficaria horas de fitando, mas você com esses seus olhos pequeninos e profundos, penetrariam aos meus, aquele sorriso de bêbado que conheço muito bem tiraria o meu sorriso de bêbada, não conseguiríamos ficar sérios e sob a janela do meu quarto você me beijaria sem nenhuma intenção. Eu não ficaria sem graça, fecharia meus olhos por dois segundos e quando retornasse-os a você, estaria ainda com os dentes a mostra e lhe diria:
- Sabe, acho que suas costas não vão ter um futuro muito bom dormindo toda noite naquele sofá...- um passo a frente você daria, rindo do que eu falava com ar de graça- E eu como residente em medicina, não poderia deixar você continuar assim, certo?- sem assentir você riria ainda mais e se colocaria a olhar o céu novamente. Me levantaria e ao pé do seu ouvido falaria sussurrando,- Dorme comigo hoje?. Você me pegaria no colo e me jogaria sobre a cama, deitaríamos folgados pois não sou lá de ocupar muito espaço, dormiríamos.
Se morássemos juntos, nunca brigaríamos, a não ser por causa do controle remoto.
Se morássemos juntos, você levaria a menina que conheceu enquanto trabalhava na cozinha para casa, eu não seria simpática e bateria a porta do quarto. E enquanto assistiria aquele programa bobo de cirurgias, você abriria a porta e pularia na cama, me chamaria pelo apelido que a anos não falava, ao qual só na adolescência pronunciávamos, olharia nos meus olhos e abriria seu sorriso de que algo queria, me faria cócegas, tiraria duas gargalhadas de mim, mas permaneceria séria. Com os olhos apertados você falaria: "Vamos, você não consegue ficar tanto tempo sem falar comigo" E eu te olharia e riria, deitaria no seu braço tatuado e lhe diria: "Dorme comigo hoje?".
Se morássemos juntos, compraríamos um daqueles cachorros enrugados que você sempre gostou, eu lhe daria o nome de Valentina e você riria.
Se morássemos juntos, voltaríamos para o Brasil de dois em dois anos, reencontraríamos nossos amigos casados e só nós dois solteiros.
Se morássemos juntos, conseguiríamos nos formar em nossas faculdades, você abriria seu restaurante e eu trabalharia no hospital mais próximo.
Se morássemos juntos, nunca iriamos sair da nossa mini casa, nunca iriamos mudar o jeito que nós viveríamos.
Se morássemos juntos, nossa rotina sempre seria a mesma, variando entre sorvete de creme ou de chocolate.
Ah, se morássemos juntos...

domingo, 7 de agosto de 2011

Só necessidade de falar.

Não vou dizer que o erro de mergulhar de cabeça e me apaixonar perdidamente por alguém que conhecia somente dois meses foi o que me deixou mais - ou menos- fria. Fria, é acho que gosto disso, mas o por que? Não querer se foder de novo? Desculpe-me o palavreado, mas tem horas que não há maneira melhor de se explicar. Na verdade minha teoria é acreditar que os problemas que temos com nós mesmos, são aqueles que acumulam dentro de nossas mentes e guardamos ali, em sete chaves, não contamos a ninguém, escondendo uma parte de nós e é ai que o problema se torna um problema. Ou pelo menos pra mim.
É clichê dizer que por fora somos diferentes do que aparentamos ser por dentro, sempre facilitando as coisas com um sorriso, engolindo o choro com um sorriso. Mas é, quem me conhece pode até não acreditar, mas pra mim o clichê é meio que real.
A que fala igual uma louca, que ri e adora estar perto dos outros, prefere ficar em casa, sem ouvir o som da voz de ninguém, sem ao menos falar com ninguém.
Sei que parece louco, mas eu gosto, muito. Gosto mais ainda do silêncio que tem a madrugada, de ouvir a minha respiração desajeitada, sentir alguns pulsos do coração.
Mas tudo tem um porém, como dizem. Eu deveria sair desse casulo que me prende dentro de mim mesma, não que seja ruim, ao contrário. Mas me isolar me faz pensar de mais, e pensar me faz lembrar de coisas que eu realmente não gostaria que tivesse aqui, paradas na minha cabeça. E me faz pensar ainda mais em clichês. São bregas não? Que menina nunca vai sofrer uma ilusão amorosa? E nos primeiros meses sofrer? E muito? Pois é, acho que muitas.
No meu caso, não sendo muito humilde, não sofro de ilusão amorosa. Acredito que seja desilusão mesmo e não imaginem que ( qualquer um que esteja lendo) sou sadomasoquista, gostar da dor é estranho, até mesmo pra mim. Enfim, é difícil de acreditar, e eu realmente estava precisando escrever em qualquer lugar que fosse que é essa desilusão que auto se move. Complicado de entender né? Pois é. Vamos ver se consigo transformar isso em alguma coisa, passar para alguma coisa, minha cabeça está muito cheia.
Não sei se é tão estranho conseguir imaginar algo do tipo, ou sentir algo do tipo... O que estou tentando escrever pra mim mesma é que, eu não preciso de dor e de sofrimento para continuar com isso, continuar esperando minha desilusão e estar feliz por ela estar feliz, e preocupada quando alguma coisa estiver errada ou ter ainda força pra sentar e esperar mais um pouco por ela. E sim, acho que vale a pena.


obs: É a quinta vez que volto ao começo. Escrevo cinco linhas, volto tudo de novo. Tanto tempo sem escrever, aliás, sem o costume de vir aqui e colocar tudo pra fora - mesmo que ninguém leia, é um alivio e tanto. Só precisava mesmo falar.